25 agosto

RUA: um projeto no Vidigal entre o UIA2021RIO e o UIA2023CPH

Para os próximos três anos, no intervalo entre as edições […]

Para os próximos três anos, no intervalo entre as edições do maior evento da arquitetura e do urbanismo no mundo, estão previstas intervenções em 963 moradias da favela carioca

 

Incrustado no sopé do Morro Dois Irmãos, o Vidigal compõe um dos cartões-postais do Rio de Janeiro. Entre o Leblon e São Conrado, região nobre da Zona Sul carioca, o bairro têm vista privilegiada para o mar e abriga uma das favelas mais fotografadas da cidade. São cerca de 35 mil os moradores do Vidigal – alguns em situação de extrema pobreza.

Os primeiros casebres surgiram há mais de 100 anos, antes mesmo da inauguração da Avenida Niemeyer, em 1922. Nos anos 1950, o Vidigal tinha cerca de 1, 3 mil moradores. Com o crescimento de Ipanema e Leblon e o aumento na demanda por mão de obra na Zona Sul, a favela inchou na década de 1960.

A vocação artística do local também é antiga: falecido em 2020, o músico, compositor e cineasta Sérgio Ricardo se mudou para o Vidigal na década de 1970 e inspirou várias gerações a ocuparem o bairro. Entre os famosos que escolheram o Vidigal para residir estão a cantora e compositora Gal Costa, os cantores e compositores Otto e Jorge Mautner, as atrizes Júlia Lemmertz, Vera Holtz, Myriam Pérsia e Maitê Proença, os atores Lima Duarte, Kadu Moliterno e Jonathan Azevedo, as cantoras Bebel Gilberto, Angela Ro Ro e Zizi Possi.

Além dos artistas, o Vidigal passou a atrair empresários, hotéis, hostels, restaurantes, bares, festas, eventos e visitantes das classes abastadas. Suas residências e negócios contrastam com as da maioria da população local, ainda carente de habitações dignas e serviços básicos como saneamento e coleta de lixo.

O Vidigal foi uma das comunidades atendidas na primeira fase (1995 a 2000) do Favela-Bairro, programa que é referência mundial em urbanização de assentamentos populares. Entretanto, por falta de manutenção, a qualidade dos equipamentos e de toda a infraestrutura implantada na época – redes de água e esgoto, coleta de lixo, pavimentação, drenagem, iluminação, espaços públicos – hoje está comprometida.

A precariedade das estruturas tem reflexos na saúde: em 2018, o Vidigal enfrentou um surto de hepatite e a tuberculose é outro problema crônico na comunidade, agravado durante a pandemia.

 

Iniciativas comunitárias

A diversidade entre os moradores do Vidigal e multiplicidade de suas vozes e ideias favorecem iniciativas para a melhoria do ambiente. Entre elas, destacam-se a criação do grupo de teatro Nós do Morro, que construiu o Teatro Vidigal e formou e revelou vários artistas na comunidade; a criação do Parque Ecológico Sitiê, a partir de um lixão; a criação da escola de artes e tecnologia, idealizada pelo artista plástico Vik Muniz; a pintura artística das fachadas de becos e vilas feita pelo pintor, decorador e restaurador Laelson; e a criação do Telhado Orgânico Medicinal e Galeria Viva. Esta conquistou inclusive o título de Patrimônio Cultural Urbano de natureza imaterial. Com o apoio da Associação de Moradores do Vidigal, dos trabalhadores do transporte alternativo (as kombis) do Vidigal e de toda a comunidade, organizada em mutirão, o arquiteto Carlos Augusto Graciano e a chef de culinária orgânica, Graça dos Prazeres, ambos moradores do Vidigal, criaram, na entrada do bairro, o primeiro ponto de transporte coletivo equipado com telhado verde do Rio de Janeiro e também um mural artístico com grafites mostrando a história da comunidade. Acima do mural fica o jardim de ervas medicinais. O projeto contou com a participação da comunidade e foi feito um trabalho educativo sobre jardinagem e práticas sustentáveis, inclusive no consumo de alimentos. A experiência contribuiu para o projeto de lei nº 1162/2019 da Câmara Municipal, que dispões sobre a construção de telhados verdes em novas edificações e reformas de coberturas na cidade. 

 

Guto Graciano e Graça dos Prazeres no Telhado Verde do Vidigal. Foto: Carlos Moraes

 

RUA – melhoria habitacional, arte e saúde

Também idealizado por Guto Graciano, junto a outras lideranças e atores sociais do Vidigal, o projeto RUA – Reforma Urbana das Artes ganhou apoio do 27º Congresso Mundial de Arquitetos e deverá ocorrer nos próximos três anos, aproveitando o intervalo entre o UIA2021RIO e o UIA2023CPH (a 28ª edição do Congresso, em Copenhague) e se estendendo após o evento. 

Apresentado ao Conselho de Arquitetura e Urbanismo no Rio de Janeiro (CAU/RJ) em 2019, o projeto sugere ações de Assistência Técnica para Habitação de Interesse Social (ATHIS) em 321 construções, cada uma com três pavimentos independentes, podendo abranger 963 moradias e famílias.

“O CAU tem reunido esforços para difundir a legislação referente a ATHIS e apoiar iniciativas na área. Esse é um campo de atuação profissional do arquiteto cada vez mais relevante”, comenta Leslie Loreto, da Comissão temporária de Assistência Técnica em Habitação de Interesse Social (CATHIS) do CAU/RJ.

O projeto RUA é amparado pela Lei Federal nº 11.888/2008 de Assistência Técnica para Habitação de Interesse Social e também, na esfera municipal, pela Lei Marielle Franco nº 6.614/2019, que institui  a assistência técnica pública e gratuita para projeto e construção de habitação de interesse social para as famílias de baixa renda.  

São três as frentes do projeto: além das intervenções nas moradias, visando promover habitação digna e saudável para a população, estão previstas a pintura das fachadas, de modo a criar, por meio da arte, uma “paisagem coletiva e terapêutica”, e a instalação de telhados verdes, jardins caseiros e hortas comunitárias, promovendo a segurança alimentar.

No Vidigal, tal como em outras favelas, a precariedade das habitações favorece o desenvolvimento de doenças. Leslie Loreto comenta que “os banheiros inadequados acabam provocando umidade e mofo em toda a residência e a ventilação e a iluminação são poucas”. Corrigindo essas situações, segundo ela, haveria resultados significativos na qualidade de vida e na saúde, com a prevenção de alergias, pneumonias, tuberculose e outros males, como o COVID-19.

Guto Graciano destaca que as condições insalubres das moradias compõem o cenário propício à “sindemia” (neologismo referente à combinação de duas ou mais doenças – ou adversidades – de forma a causar danos maiores do que a mera soma entre elas).

Com relação à pintura das fachadas, Guto comenta sobre intervenções artísticas feitas em favelas no México, na Colômbia e na Bolívia com efeitos positivos na autoestima das comunidades, no sentido de pertencimento, na apropriação e valorização dos espaços, e, como consequência, na redução da violência.

“Os telhados verdes, por sua vez, além de contribuírem para a alimentação da comunidade, inseridos no conceito de ‘fazenda urbana’, estão de acordo com a agenda climática mundial e seguem a recomendação da Organização Mundial de Saúde (OMS): índice mínimo de 12 m² de área verde por habitante na área urbana”, completa o arquiteto.

O foco do projeto está na área 314 do Vidigal e as intervenções devem começar no chamado Beco da Fome, onde as condições de habitação são mais críticas.

A área de intervenção do RUA no Vidigal

 

Imhotep e a Bauhaus como inspiração

Segundo Guto Graciano, o projeto RUA tem uma base conceitual inspirada na transdisciplinaridade. Ele remonta a Imhotep/Hermes Trismegisto (arquiteto, médico e filósofo – “o primeiro sábio da humanidade”) para explicar o conceito e defender a proposta de habitações saudáveis; e fala também do “espírito da Bauhaus na favela”, lembrando a escola pioneira na interligação de disciplinas da arquitetura, do desenho industrial e das artes – escultura, pintura, tecelagem, marcenaria, entre outras.

Guto também comenta que, realizado entre o UIA2021RIO e o UIA2023CPH, o projeto cria uma “RUA imaterial” entre o Rio de Janeiro e Copenhague, respectivamente, a primeira e a segunda Capital Mundial da Arquitetura. “Esse título está relacionado à união de culturas e valores, também uma intenção do projeto”, diz.

Parcerias

Para viabilizar a implantação e o início das intervenções, foi aberta na Câmara dos Vereadores do Rio de Janeiro uma Comissão Especial de Acompanhamento do Projeto. A intenção é captar recursos públicos e/ou privados para as ações, que contarão com parcerias de atores locais.

“Propomos a interação entre os construtores da favela edificada e da identidade da favela dos artistas, com as universidades do Rio de Janeiro – e de outras cidades do mundo – e profissionais de arquitetura, com atuação em ATHIS”, diz Graciano. Ele destaca também que o projeto nasceu em constante diálogo construtivo com a Associação de Moradores da Vila do Vidigal e com o CAU/RJ.

Em Ofício de apoio Institucional, o CAU/RJ recomenda que a Comissão Especial do projeto RUA na Câmara Municipal tome como ponto de partida o documento final do Grupo de Trabalho de Assistência Técnica e Melhorias Habitacionais, organizado pela Secretaria de Planejamento Urbano da cidade do Rio de Janeiro, entre janeiro e maio de 2021. O GT contou com a participação do CAU/RJ, junto a representantes populares e de secretarias municipais. No documento estão as principais diretrizes que podem nortear intervenções para melhorias habitacionais, principalmente aquelas ligadas à autogestão.

 

Autoria do projeto

Além do arquiteto Guto Graciano, o RUA tem como coautores:

 

E conta com a participação da equipe da Associação de Moradores da Vila do Vidigal: