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As lições dos índios para reaprendermos a habitar o planeta

20/08/2020
Igor de Vetyemy

Mais do que nunca, é hora de prestar atenção ao que nos ensinam os índios. É que o pensa o presidente do IAB-RJ – Departamento do Rio de Janeiro do Instituto de Arquitetos do Brasil, Igor de Vetyemy, que há algum tempo promove um curso imersivo na aldeia Iriri Kanã Pataxi Üi Tanara, em Paraty, cidade do litoral sul do estado do Rio de Janeiro, como parte de uma proposta de diversificação da abordagem da arquitetura.

Com a impossibilidade de fazer a visita à aldeia, devido à pandemia de coronavírus, Igor convidou o Cacique Tukano Doethyró, Presidente do Conselho Estadual dos Direitos indígenas, para participar como professor no primeiro curso (virtual) da segunda temporada do ano do IAB Compartilha – o Programa de Educação Continuada do Instituto.

“A nossa maneira de lidar com o planeta, com as nossas cidades, nos levou a esta situação delicada que vivemos atualmente. E levamos também os povos indígenas para esta situação – ainda mais crítica no caso deles, que não foram os responsáveis por esse mundo e que há muito tempo nos dão lições que teimamos em não ouvir”, ponderou Igor de Vetyemy logo no início da live de abertura da segunda temporada do IAB Compartilha.

Cacique Tukano Doethyró

Na conversa virtual com Igor, o cacique contou sua trajetória, desde a infância na aldeia de Pari Cachoeira no Alto Rio Negro, no Amazonas, até os dias de hoje. “Foi somente depois dos 18 anos, na década de 1970, que eu conheci Manaus – a primeira vez que vi uma arquitetura, um transporte, uma comunicação diferentes do que temos na floresta”, revelou.

Em 1980, o cacique foi a Brasília para acompanhar a primeira visita do Papa João Paulo II ao Brasil. “Conheci grandes lideranças indígenas lá – como o cacique Mário Juruna e o Cacique Marçal Tupã’i. Nós fomos entregar uma carta de reivindicações dos povos indígenas ao Papa. Me lembro que o Cacique Marçal – assassinado tempos depois – fez um belo discurso lá em Brasília. Eles me inspiraram a trilhar esse caminho e eu tive que renunciar, abdicar da minha área, de Pari Cachoeira, do meu povo, dos meus pais, dos meus irmãos, para lutar pelos direitos de todos os povos indígenas”.

Entre 1982 e 1983, o Cacique Tukano conviveu com os índios Xavante. Ele conta que pretendeu ir a um encontro de povos indígenas promovido pela OEA – Organização dos Estados Americanos – no Equador, mas não conseguiu emitir passaporte e foi proibido de sair do país. Na ocasião, conheceu o Cacique Aniceto, da Aldeia São Marcos, em Roraima – uma grande liderança Xavante; visitou Mário Juruna na Aldeia Namunkurá, no Mato Grosso; e conheceu ainda várias outras aldeias. “Aprendi muita coisa com eles. Fui ampliando meus conhecimentos e levando a nossa luta a outros lugares. Estava sempre conversando com as instituições que apoiavam os indígenas e que nos convidavam para eventos e reuniões. Até que, em 1988, o povo Tukano foi convidado a participar da Assembleia Constituinte e chegamos até o seu presidente, Ulysses Guimarães”.

Apesar da participação crescente na política e nos mais importantes encontros multilaterais – como a Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e o Desenvolvimento, a ECO 92, no Rio de Janeiro – o Cacique Tukano reclama a falta de autonomia dos povos indígenas.

Em 1987, ele fundou a Federação das Organizações Indígenas do Alto do Rio Negro, em São Gabriel da Cachoeira, no Amazonas. Dez anos depois, em 1997, chegou ao Rio de Janeiro e começou a organizar um grupo multiétnico – com indígenas de diversas regiões do país – que acabou se consolidando na Aldeia Maracanã, fundada em 2006 e oficializada em 2015.

Depois, em 2018, o Cacique participou da criação do Conselho Estadual dos Direitos Indígenas, que preside atualmente junto ao cacique Nino Wera’i, da Aldeia Araponga, em Paraty. “Eu represento o contexto urbano e o Nino o contexto aldeado”.

Técnicas construtivas

Depois de contar sua trajetória, o cacique adiantou um pouco do que programou para as aulas do curso do IAB Compartilha: “a arquitetura indígena é milenar. Então, é bom saber como vêm sendo construídas as aldeias e as casas dos índios – com madeira de lei, palha, cipó-titica... como são feitas as amarrações etc. Para saber quanto tempo vai durar uma casa, você pergunta: que animal você está imitando na amarração?”.

Igor de Vetyemy pontua que cada etnia tem suas técnicas construtivas e utiliza materiais diferentes, sempre naturais: “No alto Xingu, as ocas são casas-aldeia, com muitos núcleos familiares convivendo juntos, cobertura de palha, saídas de ar quente por cima. Já em outras aldeias, vimos paredes de barro, que absorvem ou liberam umidade. São diversas as técnicas utilizadas”.

O Cacique Tukano, que conhece muitas etnias, acrescenta que as técnicas estão relacionadas ao sentido da casa, aos seus significados, à cultura de cada grupo: “por que a porta dos Xavantes é baixa? Porque é para entrar abaixado – isso tem um significado”.

As muitas lições do Cacique e de Igor de Vetyemy serão dadas no curso A cultura indígena e seus saberes arquitetônicos, com duas aulas, nos sábados 22 e 29 de agosto (informações na página https://www.iabcompartilha.com/).

Aula de arquitetura na aldeia Iriri Kanã Pataxi Üi Tanara, Paraty, Rio de Janeiro

A live de abertura da segunda temporada de cursos está disponível em: https://www.instagram.com/p/CDmonicJgFH/



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