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A nova ordem na flutuação do caos

26/06/2020

Há de ser assim
Há de ser sempre pedra sobre pedra
Há de ser tijolo sobre tijolo
E o consolo é saber que não tem fim

(Serafim, Gilberto Gil)

Cantor, compositor, ex-ministro da Cultura do Brasil e ex-embaixador da ONU para a Agricultura e Alimentação, membro do Comitê de Honra do UIA2021RIO, Gilberto Gil, aos 78 anos, completos neste mês de junho, mantém uma visão serena e um tanto singular sobre o momento atual e os efeitos da pandemia do coronavírus no mundo: “é tão somente uma sequência do que vivemos”. Em videoconferência promovida pelo Museu do Amanhã, do Rio de Janeiro, quando questionado pela jornalista Cristina Aragão sobre como “sairemos dessa”, Gil responde que “não sairemos”, e, então, explica que a pandemia e o “pós-pandemia” são a “continuidade da vida, com todos os acidentes que insurgem permanentemente nela”. “A única saída é a morte”, sentencia.

Gil admite que o Covid-19 foi “um grande susto”, mas pondera que “estamos acostumados a viver sustos o tempo todo, tanto em nossas vidas particulares, como na história da humanidade”.

Para o baiano que conquistou o mundo com suas canções e reflexões profundas sobre os indivíduos e sua relação com planeta, “a vida humana é uma cordilheira, um sobe e desce”. No momento, ele diz, “estamos descendo a ladeira, sem freios. Mas estamos construindo os freios nessa descida, com a ciência, com a solidariedade, com a política, com os instrumentos que temos, e podemos chegar a um novo vale”.

Gil destaca a pesquisa científica como algo muito transformador, que “descortina novos panoramas”. Para ele, a biociência, a biotecnologia, a nanotecnologia apontam um desejo do ser humano de expandir o seu tempo de sobrevivência e até de atingir a eternidade. “A conformação do mundo hoje é muito densa, mas tudo continua como a flutuação do caos. E nós testemunhamos essas transformações – é o que a consciência permite ao ser humano: testemunhar o descarte das velhas formas de vida e a adoção de novas formas de vida”.

O coletivo sobrepujante ao indivíduo

Para Gilberto Gil, o momento atual reforça a ideia de agregação, integração e solidariedade. O artista destaca que as sociedades – os “aglomerados humanos” – assumem cada vez maior importância frente aos indivíduos. “Somos cada vez mais condicionados pela questão social; estamos nas cidades, estamos nos países, estamos no mundo todo. Somos quase 8 bilhões de pessoas caminhando numa condição de interdependência cada vez maior e precisando descartar coisas como o racismo para seguir rumo a uma possibilidade de plenitude desfrutável por todos”.

Ao portal UOL, Gil declarou que acredita numa mudança na relação do Estado com a sociedade e aposta numa reascensão do Estado do bem-estar social - “o Estado tendo que se tornar um pouco mais assistencialista, tendo que compensar as perdas do setor produtivo com seus próprios cofres e recursos. Teremos um Estado um pouco mais assistencialista, contrariando as noções do neoliberalismo, que vinha tornando-se mais forte no mundo inteiro”.

Gil também aponta o impulso que já vinham tendo as novas tecnologias e que agora é fundamental para as conexões culturais, mas alerta para o risco da intensificação dos sistemas de vigilância social, que “certamente deixarão resíduos negativos em relação às liberdades e à privacidade”.

Os desafios, na opinião do compositor, são e serão sempre constantes: “pedra sobre pedra, tijolo sobre tijolo, e não tem fim”.



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