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Arquitetura tradicional e inclusão na África do Sul e as políticas habitacionais no mundo

25/06/2020

Em 2018, uma das atrações da Bienal de Arquitetura de Veneza foi a exposição Architecture Landscape, que ocupou o salão Arsenale, com desenhos do arquiteto sul-africano Peter Rich, palestrante confirmado do UIA2021RIO. Curadoras da Bienal, as arquitetas Yvonne Farrell e Shelley McNamara disseram que Rich lembra aos profissionais algo que anda esquecido: o desenho feito à mão.

Na exposição, 15 desenhos de oito projetos de Rich, estampados em painéis de lona de 1,5 metro por 2,5 metros, foram suspensos a uma altura de 5 metros, em uma estrutura de madeira e aço. Entre os desenhos estavam os do Centro de Interpretação de Mapungubwe, uma das obras mais famosas de Peter Rich, premiada, em 2009, no World Architecture Festival (WAF), em Barcelona, como o World Building of the Year.

Trata-se de um museu instalado no Parque Nacional Mapungubwe (Patrimônio da Humanidade pela UNESCO), localizado na província de Limpopo, ao norte da África do Sul, na fronteira com Bostuana e Zimbábue. O local permaneceu desabitado por séculos e, além de sítios arqueológicos, abriga baobás milenares e uma fauna muito diversa.

O Centro de Interpretação desenhado por Peter Rich fica numa mesa geológica, local que foi considerado sagrado por diversas tribos. É uma construção de baixo custo, que partiu de tecnologias e métodos ancestrais. Rich projetou formas ondulares, abóbadas, coberturas em arco, que remetem a grutas e cavernas. Na construção, que contou com a participação de comunidades locais, foram usadas pedras e terra. Os percursos externos, ao ar livre e debaixo de árvores, contrastam com a rudeza do prédio.

O museu reúne artefatos que contam a história da região e de seus povos. Peter Rich é um aficionado pelo tema. Nascido em Joanesburgo, em 1945, ele estudou e depois trabalhou, por quase 30 anos, como professor na Universidade de Witwatersrand. Pesquisou e documentou extensivamente os assentamentos indígenas tradicionais da África do Sul – um patrimônio cultural que foi praticamente destruído durante o Apartheid. Peter foi um dos fundadores do grupo Arquitetos contra o Apartheid. Sua pesquisa foi reconhecida internacionalmente e ele trabalhou como arquiteto e ativista criando projetos para comunidades indígenas, não só na África do Sul mas também em outros países.

Com o fim do Apartheid e o estabelecimento da democracia, passou a desenvolver para o governo sul-africano projetos de forte impacto social e que buscam reconciliar a arquitetura tradicional do continente com as práticas ocidentais, assim como “regenerar a paisagem social”. Atualmente, Peter Rich é um dos mais importantes arquitetos de seu país e uma voz a clamar pela inclusão social: "Busco prestar serviços aos menos privilegiados, porque eles merecem. Vou continuar a boa luta e levá-la ao mundo", declarou na cerimônia de premiação do WAF.

Visão global

De outra posição e com experiências diferentes, o arquiteto Claudio Acioly, também confirmado para o UIA2021RIO, agrega uma visão global ao debate sobre demandas dos menos privilegiados, com foco em habitação. Por mais de 30 anos, Claudio Acioly tem trabalhado com planejamento, projeto, gestão, implementação e avaliação de políticas de habitação e desenvolvimento urbano em países do mundo todo. Junto à ONU-Habitat, o Programa das Nações Unidas para os Assentamentos Humanos, desde 2008 tem coordenado políticas e programas habitacionais em países como Malawi, Gana, Uganda, Zâmbia, Vietnam, Cuba, Equador, El-Salvador e Tanzânia, entre outros.

Em inúmeros casos de remoções, em que a ONU-Habitat interveio para garantir direitos humanos, Acioly esteve presente. Ele lembra, por exemplo, de um despejo de cerca de 200 pessoas de uma área ocupada irregularmente, em Port Harcourt, na Nigéria. “Eram áreas de inundação, mas as pessoas não foram consultadas ou informadas. Saíram para trabalhar e, quando voltaram, encontraram suas casas demolidas e seus pertences entre escombros”, contou à Revista Dois Pontos, produzida pelas Universidades Federais do Paraná e de São Carlos. Na ocasião, a equipe de Acioly reuniu lideranças locais e contatou autoridades para convencê-las de que a remoção, como estava sendo feita, criava um problema muito maior para a cidade.

No Brasil, um caso problemático relembrado por Acioly foi o da reintegração de posse do Pinheirinho, em São José dos Campos, SP, com cerca de 1,5 mil famílias desalojadas. “Foi uma violação muito drástica do direito à habitação adequada”, considera o arquiteto.

Ele também menciona remoções bem sucedidas a partir do diálogo com as comunidades: “Na Índia, com o apoio técnico de uma ONG chamada Spark, foi feita a identificação das pessoas que moravam à beira de uma linha férrea e todas foram realocadas. O exemplo foi seguido nas Filipinas e também no Quênia. O caso indiano chegou a uma escala significativa. Quando você tem um envolvimento da população com o processo decisório e o planejamento, a chance de dar certo, no sentido de criar uma base de sustentabilidade, é considerável”, declarou.

Acioly também menciona o exemplo de Singapura, que conseguiu transferir praticamente 100% dos moradores de assentamentos informais para habitações sociais providas pelo Estado; e, na América Latina, as iniciativas do Uruguai e do Chile – “esse último com mais de 100 anos de política habitacional contínua”.

Além da ONU-Habitat, Acioly foi consultor do Banco Mundial, de outros programas das Nações Unidas como PNUD e UNECE, e do Institute for Housing and Urban Development Studies-IHS, da Holanda. É também professor associado ao Lincoln Institute of Land Policy, dos Estados Unidos.

Mais informações sobre estes palestrantes e outros confirmados para o UIA2021RIO estão na página https://www.gapcongressos.com.br/eventos/z0140/palestrantes.asp



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