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Reconhecer a existência e a potência das favelas – o primeiro passo em um projeto de cidade

22/06/2020

Em 2014, quando o Rio de Janeiro era “disputado” por muitos eventos e projetos, surge, no Complexo da Maré, o Território Inventivo, um braço da organização social Observatório de Favelas, focado em Políticas Públicas. “Nós também queremos disputar a cidade”, conta Lino Teixeira, arquiteto e um dos coordenadores do projeto. O primeiro passo, segundo ele, é o reconhecimento das potencialidades dos territórios populares.

Na entrevista ao UIA2021RIO, Lino fala sobre as estratégias do Território Inventivo, conta do mapeamento feito no Complexo da Maré e comenta sobre o impacto da pandemia de Covid-19 nas favelas.

1) Como surgiu e o que é exatamente o Território Inventivo?

O Território Inventivo é hoje o projeto guarda-chuva do Observatório de Favelas na área de Políticas Urbanas. O Observatório atua em quatro áreas: além de Políticas Urbanas, também em Comunicação, Arte e Território, e Direito à Vida e Segurança Pública.

Como tudo na instituição, o Território Inventivo gira em torno do que chamamos de paradigma da potência, que é um conceito-chave para pensarmos todas as nossas ações na cidade, no sentido de superação das dificuldades socioespaciais, com olhar para a favela.

Basicamente, esse paradigma da potência é uma construção estratégica de novas representações sobre os territórios populares com o objetivo de subverter as lógicas estigmatizantes, que são cristalizadas ao longo do século 20, para incidir politicamente e construir políticas públicas, de forma a contribuir para a superação das dificuldades.

Estamos construindo um conjunto de ações voltados para a produção de conhecimento, formação de pessoas, proposição urbana e mobilização social, com o objetivo final da incidência política – queremos dar visibilidade para esses processos e disputar o projeto de cidade.

O Território Inventivo surgiu em 2014, exatamente em um contexto de disputa em que a cidade se encontrava, com muitos eventos e projetos acontecendo. E nós quisemos disputar a cidade também.

2) O que tem sido feito pelo Território Inventivo e quais os resultados já obtidos?

Nós já temos uma trajetória. O primeiro eixo do Território é o reconhecimento das potências, a produção de conhecimento sobre as favelas, a compreensão do território, para que se possa construir propostas.

Quando começamos a trabalhar com a Maré, não existia uma base cartográfica do complexo, não existia um mapa; a Maré não estava representada nos mapas oficiais da cidade, assim como a maioria das favelas ainda não está. Como fazer políticas urbanas se nenhuma base cartográfica existe? Nosso primeiro trabalho foi construir um mapa, superar o vazio cartográfico. Aqueles lugares eram representados a partir do vazio, o que traduz uma invisibilidade tanto material como simbólica. Se você não está no mapa, você não existe.

Não foi uma tarefa trivial: estamos falando de um complexo de 16 favelas, 140 mil habitantes. Nós criamos essa base e, num segundo momento, mapeamos mais de 3 mil pontos de uso da Maré. Foi o primeiro diagnóstico e mostrou um território muito potente, muito pulsante, que tem uma vida econômica e cultural muito forte. Um território que não só existe, como é repleto de potências e vocações – na contramão da visão que se tem de favela.

No eixo de Mobilização Social, em 2015, fizemos o Fórum da Maré, com o objetivo de reunir as 16 associações de moradores com diversas organizações sociais da Maré e construir uma agenda urbana coletiva para influenciar na cidade. Também realizamos uma Oficina de Mobilidade de Espaço Público, reunindo diferentes atores – Estado (gestores públicos), academia, sociedade civil, lideranças da favela. Esse é um exemplo das articulações que temos criado, como mediadores.

No eixo de Formação, oferecemos diversos cursos, workshops, para produzir conhecimento e inteligência no território, a fim de disputar a cidade. E no eixo de Visibilização, organizamos seminários e peças de comunicação.

3) Há intenção de se replicar essas iniciativas?

Sim. Todo o projeto do Território Inventivo caminha para ser replicado em outras favelas, além da Maré. Uma mostra da incidência política já alcançada é o fato de a Prefeitura, por meio do Instituto Pereira Passos, ter incorporado esse mapa da Maré e a metodologia de mapeamento para utiliza-la em outras favelas.

4) Como provocar a atenção de arquitetos e urbanistas para as favelas e periferias?

Todo o nosso esforço é justamente para trazer arquitetos e urbanistas, junto com gestores públicos e lideranças locais, para pensar conjuntamente a favela. Vimos criando meios para sensibilizar arquitetos e urbanistas com a intenção de criar um novo olhar para a favela, que não seja o que se tem hoje – de ausência, de carência, de estigmas. Esse é o nosso primeiro objetivo: provocar um novo olhar, fazer com que se pense a favela a partir de uma outra lógica de representação.

5) A pandemia do coronavírus evidenciou a ausência de serviços essenciais e de atendimento básico emergencial nas favelas e periferias e, diante dela, a surpreendente capacidade de mobilização popular para superar todo tipo de adversidade surgida – desde a demanda por medidas de precaução, até cuidados médicos e, principalmente, alimento e recursos para sobrevivência. Que lições a cidade tem a tomar a partir dessa experiência?

As favelas e as periferias têm sido impactadas de forma especial por qualquer problema urbano, porque as políticas públicas voltadas para esses territórios são ineficientes e, muitas vezes, genocidas, urbicidas, de impacto extremo para os moradores. As epidemias urbanas são historicamente associadas às favelas. Temos um conjunto de epidemias que vêm assolando os territórios populares e são, inclusive, fundantes das favelas; as epidemias ajudam a fundar as políticas públicas estigmatizantes que vêm se repetindo ao longo do século 20. A Covid-19 é só mais um exemplo. E a forma como o Estado age nesse momento é só uma reprodução das políticas públicas que se tem para as favelas ao longo dos tempos. Fazendo um histórico, a favela surge no contexto da febre amarela – com a destruição dos cortiços. Depois, a gripe espanhola chega em um momento em que as favelas estão se estabilizando e empilham-se nelas os corpos das vítimas. Seguem-se outras doenças que vão sendo empurradas para as favelas – são transformadas em “doenças de pobres”. Hoje o que se vê é isso. Após um primeiro momento em que a quarentena foi adotada parcialmente pela população – sobretudo pela população mais rica – e a partir do momento em que a epidemia se estabiliza nas zonas ricas da cidade, ou seja, se transforma em um problema periférico, de pobre, temos o incentivo ao retorno das atividades e à abertura e flexibilização do isolamento. É a reprodução da lógica estigmatizante: os moradores da favela são vistos como sujeitos que podem ser empurrados para a morte. Não é nada novo. É a reprodução das políticas públicas de anos. O que vimos estudando já indicava que isso aconteceria. E o que surge como resposta – quando o governo age dessa forma, com políticas genocidas – é que, mais uma vez, os próprios moradores se organizam para superar os problemas. O estado continua entrando com operação policial nas favelas – além de empurrar para a morte pelo vírus, continua atuando com os caveirões, no que eles chamam de política de segurança pública. E os moradores dos territórios populares, com sua potência, é que estão construindo meios para superar tudo isso. Então, a lição é que temos que ouvir as lideranças desses territórios, e prestar muita atenção nas suas formas de organização. É dessa força e dessa potência que devemos extrair as políticas públicas.

Para saber mais sobre o território inventivo acesse o vídeo https://www.territorioinventivo.org.br/copia-inicio



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