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Uma arquitetura contemporânea e sustentável na Amazônia

15/06/2020

Entre julho e agosto do ano passado, para as comemorações de seus 60 anos, a Maison du Brésil, na cidade universitária de Paris, França, levou ao público uma mostra valorosa e surpreendente: a Amazônia a partir de sua arquitetura. Além da exuberância da natureza, a exposição procurou mostrar como vivem mais de 18 milhões de pessoas nas áreas urbanas em torno da floresta no Brasil. Não faltaram projetos de dois arquitetos que estão entre os maiores conhecedores dessa realidade: palestrantes confirmados para o UIA2021RIO, Laurent Troost e Roberto Moita moram em Manaus, assinam obras destacadas pelo respeito e preservação ambiental e têm experiências na gestão pública do município – especificamente na direção do Instituto Municipal de Planejamento Urbano (Implurb).

Laurent nasceu em Bruxelas, Bélgica, trabalhou para escritórios em diversos países europeus, até fixar moradia, em 2008, na capital amazônica. Desde 2013 no cargo de diretor de planejamento urbano do Implurb, ele trava uma luta pelo adensamento urbano e explica que um dos grandes problemas das cidades no Brasil é o fato de serem espalhadas, com baixíssima densidade e arrecadação: “é resultado do desenvolvimento urbano a partir da perspectiva do automóvel – esse modelo não tem como ser economicamente sustentável, já que a arrecadação por quilômetro quadrado é baixa e o custo de produção e manutenção da cidade muito alto”, defendeu em seminário sobre a região metropolitana de Manaus.

Além do urbanismo, Laurent tem obras marcantes da arquitetura contemporânea do Amazonas. No ano passado, foi vencedor do prêmio Deezen na categoria Casa Rural, com a sua Casa Campinarana, que fica num bairro afastado do centro de Manaus. O nome é o do tipo de floresta em que a residência se insere e que foi preservada: com pequenas árvores e solo encharcado. A estrutura criada por Laurent quase não encosta no solo e seguiu o conceito de “design passivo”, em que são usados meios naturais para o conforto térmico.

Casa Campinarana, de Laurent Troost. Fotos: Leonardo Finotti e Maira Acayaba

Outros dois projetos recentes do arquiteto são o do Centro de Atendimento ao Turista, em Manaus, e o Píer Parintins. O primeiro é para o Parque Ponta Negra, principal parque público da capital, na orla do Rio Negro. A ideia principal foi manter a vista do horizonte. O uso de vidros ajudou a minimizar obstáculos visuais. O Píer Parintins, por sua vez, é um projeto de uso múltiplo para a orla do município às margens do Rio Amazonas. O projeto fez parte da exposição Hidden Architects, do Salão de Urbanismo e Arquitetura de Seul, em março, na Coreia do Sul. Este ano, Laurent Troost integra o júri do Dezeen Awards.

O Centro de Assistência ao Turista, no Rio Negro, Manaus (AM)
Foto: Maira Acayaba
O projeto do Píer Parintins

Diálogo respeitoso com a natureza

Natural de Fortaleza, Ceará, Roberto Moita mora e trabalha há mais de 30 anos em Manaus, para onde se mudou logo após concluir a graduação em Arquitetura. O interesse pela capital amazonense foi imediato: “eu já era muito ligado à questão do patrimônio e da formação histórica das cidades e Manaus é muito rica nesse aspecto: uma cidade construída em cima de uma aldeia indígena, que depois se converteu numa metrópole ainda no século XIX, e teve um segundo ciclo de desenvolvimento, um ciclo industrial, nos anos 1960”.

Diretor-presidente do Implurb entre 2013 e 2017, Moita também defende uma política de adensamento para a capital, sobretudo com revitalização do centro histórico. Segundo o arquiteto, a Amazônia ainda é pensada como um vazio demográfico e é dessa “negação da cidade” que deriva a falta de políticas públicas essenciais, como saneamento.

Roberto Moita foi quem projetou, no início da década de 1990, o Parque do Mindu, uma das unidades de conservação de Manaus. A criação de sombras, o aproveitamento do vento e a combinação de madeiras amazônicas, aço, alumínio e concreto são características do projeto, assim como as trilhas suspensas que permitem ao visitante caminha na altura das copas das árvores.

Parque do Mindu, em Manaus (AM). Foto: Tereza Cidade

O Parque do Mindu foi uma das obras de Moita apresentadas na Maison du Brésil. Outra foi a casa do Sítio Passarim, também em Manaus. Ela é mais um exemplo de harmonização entre elementos naturais e não naturais. “Eu procuro criar um diálogo profícuo, com alteridade, entre o que é da natureza e o que não é. Minha ideia não é mimetizar o artefato e sim afirmar a sua presença, mas de forma integrada com a natureza. Eu não acho que a integração só se dá com a fusão”.

Num terreno de 7,5 mil m², bem próximo a um igarapé, a casa é rodeada por árvores. Tem estrutura em aço, elevada sobre troncos de madeira. “O aço é destacado com a pintura em vermelho enquanto os troncos parecem estar na sequência das árvores”, diz o arquiteto. Para Moita, a obra traduz uma "urbanidade amazônica". O projeto foi finalista da 4ª Bienal Ibero-americana de Arquitetura, em 2004, no Peru.

O Sítio Passarim, de Roberto Moita


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