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O arquiteto, a psicogeografia e o imaginário das cidades

08/06/2020

Angelo Bucci deixou sua cidade natal, Orlândia, no interior do Estado de São Paulo, para cursar arquitetura na capital. E, então, se viu, cotidianamente, imerso na obra do mestre Vilanova Artigas que abriga a FAU/USP (Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo) – “um edifício que nos forma, que está encarnado de um humanismo, que dialoga com professores e alunos. Um templo para os arquitetos”. Com essa reverência, Bucci, palestrante confirmado do UIA2021RIO, inicia uma conversa estimulante – e provocativa de muitas reflexões – com o também arquiteto e editor português Joaquim Moreno, em mais um programa do Studio Casa, canal, no YouTube, da Casa da Arquitectura, de Portugal.

Da mesma forma que, por si só, um edifício ensina, em outra escala, também se aprende muito com o que está concretizado em uma cidade, garante Bucci. “Não há nada que se possa pretender imaginar em arquitetura que não possa sair do que está na cidade. Porque o que está ali não é só o que foi construído, mas também o que não foi. Se você combina os elementos de outro modo, são outros projetos”.

Como resultado do que aprendeu com a cidade de São Paulo, Angelo Bucci concluiu sua tese de doutorado transformada no livro São Paulo razões de arquitetura: da dissolução aos edifícios e de como atravessar paredes. “Por suas dimensões e contradições, São Paulo oferece um aprendizado muito rico”, diz o arquiteto, destacando as influências da “geografia física de Aziz Ab Saber e da geografia humana de Milton Santos” em suas percepções da cidade.

No livro, Bucci explica que São Paulo cresceu entre a várzea dos rios Tamanduateí e Anhangabaú e que, em decorrência da diferença entre a parte alta e a parte baixa, a cidade tem como característica única “a espessura – de 20 metros – do seu chão”. O arquiteto aborda a verticalização da cidade e a ocupação precária das várzeas, áreas inundáveis, por populações socialmente excluídas. E aponta a violência urbana como algo que se instaura e “se cristaliza”. “A cidade é a materialização de sentimentos. É assim quando nossos medos viram muros de concreto”, exemplifica, acrescentando que disso resulta uma responsabilidade dos arquitetos em cuidar do que externam em seus projetos. “Se não, o mundo vai ficando a construção do que não deveríamos difundir”.

Segundo Bucci, sua análise também é influenciada pelas ideias do francês Michel de Certeau, historiador muito atento ao cotidiano. Joaquim Moreno, por sua vez, associou os pensamentos de Bucci à deriva situacionista e à psicogeografia, conceitos definidos por outro pensador francês, Guy Debord, em meados dos anos 1950.

Para Bucci, a construção de São Paulo se baseia na violência: “são 11.455 homicídios, 3.028 vítimas fatais em acidentes de trânsito, 719 suicídios, 6.817 crianças mortas antes de completar um ano de idade e 4.066 nascidos mortos. É este o custo, em vidas humanas, que a existência da cidade de São Paulo cobra a cada ano”, escreveu o arquiteto em sua tese. O número – pontua – é ainda maior se consideradas outras formas de consumo da vida humana como o tempo gasto por milhões de pessoas no percurso de casa para o trabalho em condições de transporte precárias.

“Diante dessas evidências, é fácil convencer-se de que está tudo errado e não há saída. Por isso meu interesse era mostrar que ainda faz sentido criar projetos, que as coisas podem ser impregnadas de humanidade. Mesmo naquelas que foram produzidas por valores contrários ao que queremos defender, podemos inverter o sinal e fazer com que passem a trabalhar de outro modo”.

A casa Olga Baeta, projetada por Vilanova Artigas e
restaurada por Angelo Bucci

Bucci também comentou sobre a restauração que fez em 1998 na casa Olga Baeta, projetada pelo arquiteto Vilanova Artigas, em 1956: “Foi uma oportunidade única, como um reencontro, uma chance de conhecer a obra do Artigas com todo cuidado”. Ele destaca que sua atenção para a cidade também partiu de uma lição de Artigas: “ele adorava dizer que deveríamos desenhar casas como cidades e cidades como casas. A frase é de Leon Battista Alberti, mas, para um arquiteto de São Paulo, essa é uma lição de Vilanova Artigas”.

Ainda segundo Bucci, a geração de Artigas não chegou a participar de forma destacada no momento de maior expansão da cidade de São Paulo – “estava restrita a um campo de atuação menor, com obras pequenas” – mas ensaiou, então, soluções que viriam a ser aplicadas posteriormente. “Aquelas obras eram as oportunidades de ensaios que os arquitetos tinham na época. As casas eram um pedaço de outra coisa. A casa Olga Baeta é um exemplo. Vilanova Artigas fez lá ensaios de soluções que depois usou no projeto do prédio da Faculdade de Arquitetura”.

A entrevista completa de Angelo Bucci para o Studio Casa pode ser acessada pelo link https://www.youtube.com/watch?v=8OC2cGgmWzo.



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