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Devolver natureza às cidades: o caminho para vencer os desafios contemporâneos

03/06/2020

O planeta terra tem cerca de 4,5 bilhões de anos. Nos últimos 350 mil anos, começaram a surgir as espécies humanas. “E causaram esse estrago gigantesco”, pontua, enfática, a pesquisadora Cecília Herzog, professora do Departamento de Arquitetura e Urbanismo e coordenadora da pós-graduação em Paisagismo Ecológico: planejamento e projeto da paisagem, na Pontifícia Universidade Católica no Rio Janeiro (PUC-Rio). Seu comentário é o fio condutor de um raciocínio recheado de complexidades, mas que pode ser resumido de forma bastante simples: “para interromper sua ação predatória e reverter os danos já causados ao meio ambiente, os humanos devem recorrer aos ensinamentos da natureza”.

Cecília é atualmente uma das principais vozes brasileiras a defender as chamadas Soluções baseadas na Natureza, termo cunhado União Internacional para Conservação da Natureza (IUCN) em 2009. Ela aborda esse tema e menciona iniciativas que vêm sendo tomadas no mundo e que podem ser replicadas para a preservação do planeta.

Autora do livro Cidades para Todos: (re)aprendendo a conviver com a natureza, Cecília é consultora, tendo trabalhado para o Observatório de Inovação para Cidades Sustentáveis do CGEE (Centro de Gestão e Estudos Estratégicos), II e III Diálogo Setorial entre a Comunidade Europeia e o Brasil (MCTIC), e para outras instituições que enfocam a sustentabilidade e resiliência das cidades.

1) Um dos conceitos muito destacados atualmente no debate sobre as cidades é o da resiliência. As Soluções baseadas na Natureza buscam garantir essa resiliência urbana?

Sim. Entende-se por resiliência urbana a capacidade das cidades de se adaptarem para enfrentar impactos climáticos, voltando a funcionar como antes deles. Eventos de grande impacto têm ocorrido com maior frequência – já não são mais de 20 em 20 anos – e muitas das ações para dar resiliência são baseadas na regeneração de processos e dos fluxos naturais. A passagem do furacão Sandy pelos Estados Unidos foi um marco para que a resiliência entrasse na pauta dos gestores públicos de lá. Nova York ficou dias sem luz, teve prejuízos severos. Depois disso, foram feitos investimentos em parques, praças, hortas urbanas, tetos verdes. Era preciso reconstruir os ecossistemas em toda a costa leste americana, e é o que está sendo feito. Isso está acontecendo em inúmeras cidades em todos os continentes.

2) O que poderá resultar do grande impacto da atual pandemia de Covid-19? Como as cidades responderão?

As cidades colapsaram, o sistema colapsou. Teremos que voltar a funcionar, mas não será como antes. Talvez haja uma revisão e a busca de alternativas ao modelo econômico predatório que constituímos; que faz com que a gente gaste um planeta e meio por ano – tanto no que diz respeito à capacidade de gerar recursos naturais como à de digerir os resíduos que produzimos. É urgente mudar de paradigma, ter visão sistêmica e compreensão de que não só dependemos da natureza para viver, mas somos natureza!

Hoje as cidades são os nossos habitats; a maior parte população mundial é urbana. As cidades são os centros de consumo que esgotam os recursos e que poluem. Como resposta imediata já se nota um movimento para fora das cidades, para o campo. Mas as cidades são os centros de trocas, de conhecimento, onde temos possibilidades de interagir; o ser humano é gregário. E as cidades são também os centros de decisão. Então, é preciso levar um pouco do campo para as cidades; elas não podem crescer sobre ecossistemas essenciais para a manutenção da vida e dos processos naturais, sobre áreas agriculturáveis. Essas áreas são cruciais para a manutenção da vida, e do funcionamento da civilização humana.

3) Como é possível recompor os fluxos naturais em grandes metrópoles?

O planejamento urbano é muito heterogêneo, as políticas são diversas assim como são as populações e as formas como se articulam. Mas há exemplos pelo mundo todo, a começar por Freiburg, na Alemanha, que, desde a década de 1970, é referência em sustentabilidade e integração com a natureza; a cidade onde nasceu o Partido Verde, depois da mobilização ativa dos moradores contra a instalação de uma usina nuclear e a pesquisa de energias renováveis. Freiburg é exemplar em uso de energia solar, mobilidade, reciclagem, e também no manejo sustentável de águas pluviais. As soluções baseadas na natureza estão incorporadas em bairros inteiros, tornando-os sustentáveis, resilientes, e oferecendo alta qualidade de vida e bem-estar.

Millennium Park, em Chicago (EUA), o maior park verde do mundo

Paris é outra metrópole que tem investido na biodiversidade urbana, criando mais parques, praças, cantinhos verdes, agricultura urbana, com projetos inovadores que regeneram áreas degradadas com introdução de soluções baseadas na natureza. Chicago, nos Estados Unidos, incentiva os telhados verdes e conseguiu com isso reduzir os alagamentos em mais de 30%. Los Angeles tem um projeto para renaturalizar o rio que lhe dá nome. Além de reduzir as inundações e alagamentos, busca melhorar a qualidade das águas, restaurar o ecossistema e as funções hidrológicas, dar acesso público ao rio, valorizar o entorno. No Canadá há iniciativas semelhantes em bacias hidrográficas. Aqui na América do Sul, Colômbia, Argentina, Peru, Chile estão fazendo cidades mais ecológicas e trabalhando para reduzir o abismo social. São inúmeros exemplos ao redor do mundo, até na África.

4) E Seul, na Coreia do Sul – é também um exemplo que você costuma destacar, não?
O Cheonggyecheon, em Seul (Coreia do Sul)
(Foto: My Guide Seoul)

Seul é um caso impressionante e que tem semelhanças com o que ocorre muitas vezes aqui no Brasil. Nas décadas de 1960 e 1970, a capital sul-coreana buscava um crescimento a qualquer custo. E foi nessa época, com uma cultura rodoviarista (tal como a nossa), que eles cobriram um córrego histórico – o Cheonggyecheon – com um viaduto e entubaram o córrego direcionando esgoto para a imensa galeria. A diferença é que lá eles investiram em educação. Então, em meados da década de 1980, as pessoas, educadas, informadas, começaram a cobrar melhor qualidade de vida nas cidades. E aí tem início a transformação urbana. A primeira oportunidade veio com os jogos Olímpicos de 1988: foi construído um parque olímpico, de quase 1.700 m², em que foi restaurado o corpo d’água e criado um lago para tratamento das águas da região industrial, que estava abandonada. A oportunidade seguinte foi a Copa do Mundo de 2002: ao sul da cidade, onde havia dois morros de lixo, que foram descontaminados, surgiram cinco parques que regeneraram a área degradada, possibilitando o desenvolvimento urbano com qualidade ambiental. Na sequência, veio o projeto mais conhecido e impactante, que demoliu o viaduto que cobria o Cheonggyecheon, e renaturalizou o córrego. Foram criados novos ecossistemas, 22 pontes costuraram o tecido urbano que estava seccionado e transformaram o centro da megacidade. Nos três anos seguintes, a capital recebeu 75 milhões de visitantes para conhecer o projeto icônico, que tirou concreto e carros e regenerou ecossistemas, processos e fluxos naturais, oferecendo inúmeros serviços ecossistêmicos. Seul estimulou um novo modelo de desenvolvimento – hoje as cidades coreanas disputam um ranking de sustentabilidade. E é um hub de tecnologia. Uma inspiração para megalópoles no mundo inteiro.

5) Inclusive no Brasil? Como o Rio de Janeiro, por exemplo, poderia começar a investir em um desenvolvimento sustentável, harmonizado com a natureza?

Parar de degradar já seria um excelente começo. Se a gente olha para o Rio de Janeiro, para o que foi feito na Barra da Tijuca, em Jacarepaguá, vemos uma década inteira de estragos. E continuam. Mais e mais áreas úmidas são aterradas, ecossistemas são erradicados dando lugar a edificações, suprimindo áreas naturais essenciais ao suporte, sustentabilidade e resiliência da região. Persiste-se nos mesmos equívocos do passado.

Evidências científicas são desprezadas. A cada chuva mais forte, grande parte da população perde bens e tem sua vida impactada, e, por falta de opção, reconstrói no mesmo lugar. Na África do Sul, em Durban, há 15 anos já não se constrói nada a 300 metros da linha de base por conta da elevação do nível do mar. É preciso ouvir a ciência. O Rio de Janeiro tem estudos de mais de 12 anos que deveriam orientar o plano diretor e os projetos urbanos.



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