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Combate ao Corona exige habitações e cidades saudáveis

01/04/2020

Christovam Barcellos tem passado os últimos dias de forma intensa em sua própria casa, no Rio de Janeiro: várias reuniões consecutivas em videoconferência, pela manhã e também à tarde, dezenas de telefonemas, e-mails e mensagens de Whatsapp, e inúmeros textos, dados, planos, estudos científicos e notícias para analisar. Ele está no olho do furacão. Como pesquisador da Fundação Oswaldo Cruz – Fiocruz, há mais de 30 anos estuda e dá aulas sobre as relações entre clima, ambiente e saúde.

Geógrafo, engenheiro civil, especialista em Saúde Pública e doutor em Geociências, Christovam acompanhou e estudou as recentes epidemias de Dengue, Chikungunya e Zika no Rio de Janeiro e no Brasil, e agora faz parte da força tarefa multidisciplinar da Fiocruz que busca soluções para o problema responsável pelo maior impacto jamais visto na saúde e na vida econômica e social dos brasileiros e de todo o mundo.

A Comunicação do UIA2021RIO convidou Christovam a falar sobre a pandemia do Corona e sua relação com a urbe e o modo de vida do homem moderno.

Para começar, você poderia dar um panorama geral e situar o Coronavirus em relação a outras grandes epidemias do mundo?

Epidemias são comuns no mundo inteiro ao longo da História. Algumas foram devastadoras, como a Peste Negra na Europa, em meados do século 14, e mataram milhões de pessoas. Cólera, por exemplo, devastou a Europa e os Estados Unidos, principalmente nas duas décadas entre 1840 e 1860, e aterrissou ao Brasil causando grande estrago em várias regiões no final do século 19, quando chegou a ser erradicada, voltando um século depois na Amazônia. Hoje, ela ainda existe e mata na África e na Ásia. Mas com a melhoria das condições de saneamento, habitação e trabalho, essa e outras epidemias foram diminuindo, especialmente nos países de clima temperado. Infelizmente, nos países tropicais ainda restam diversas epidemias e transmissões de doenças infecciosas, quase que permanentemente. No Brasil, temos a Dengue presente desde meados dos anos 80, e, mais recentemente, entraram no país a Chikungunya e a Zika.

Em geral, as epidemias causadas por vetores, como os mosquitos, têm uma difusão lenta, e de alguma maneira são mais previsíveis. As doenças causadas por vírus respiratórios é que são terríveis, porque a propagação é muito rápida, e a transmissão de pessoa a pessoa é de difícil controle. O Brasil e o mundo já tiveram diversas outras epidemias de doenças respiratórias, principalmente as gripes, mas nunca com a velocidade e alcance que o Coronavirus (Covid-19) apresenta. Pela primeira vez existe uma gravidade muito grande, que medimos basicamente pela proporção de pessoas que precisam se hospitalizar ou que morrem por causa dessa epidemia. O Covid-19 é muito grave. Já tivemos, no início deste século 21, as epidemias de H1N1 e de Sars (Síndrome Respiratória Aguda Grave), que evoluiu do Sudeste Asiático (Canadá e Estados Unidos foram muito afetados), mas nenhuma delas teve tanta gravidade, quantidade de pessoas mortas, na escala do Corona.

Esse vírus novo é realmente muito preocupante, não só pelo vírus em si, mas pelas características do mundo moderno. Hoje temos muito mais viagens, muito mais interação social, as pessoas conversam e trabalham em ambientes confinados e há uma degradação da qualidade de vida. Alguns indicadores de qualidade de vida melhoraram no mundo, como por exemplo a renda média e o nível de educação, mas outros pioraram. Muita gente vive em condições horríveis de habitação e trabalho. Claro que não estou falando da Europa, estou falando do mundo periférico, Ásia, Américas e África. As consequências dessa epidemia podem ser terríveis por causa desse mundo novo em que vivemos, com cada vez mais mobilidade humana, e os vírus sofrendo mutações com uma facilidade impressionante.

A maneira como vivemos hoje no mundo globalizado tem então relação com essa epidemia? A facilidade de locomoção entre países está na origem da propagação do vírus?

A tendência dessas epidemias que têm uma propagação mundial é essa: as primeiras pessoas que têm contato são as que viagem para o exterior, a turismo ou a negócios. Assim foi com a Sars e a Aids, elas chegam aos grandes centros trazidas por uma classe mais privilegiada, atingindo primeiro os bairros mais nobres, mas provavelmente em poucas semanas se espalham para os subúrbios das cidades, as áreas mais pobres. No caso do Corona, existe uma preocupação muito grande com as favelas, porque as medidas de higiene envolvem o acesso à água, a compra de higienizadores, inclusive álcool, mas também detergente e sabão, e principalmente é preciso ter água em casa. Outra coisa importante é o arejamento das casas, deixar as janelas abertas, o sol entrar. Evitar contato com pessoas, e aumentar a circulação de ar e a insolação dentro de casa. E isso é complicado não só em barracos e outros domicílios em favelas, mas também em algumas residências rurais e em subúrbios com famílias vivendo no que a gente chama de aglomeração domiciliar, com uma densidade muito grande de pessoas dentro das casas, com poucos cômodos e muita gente dividindo esses cômodos, isso pode trazer muitos problemas.

Outra coisa é que a quarentena e o isolamento funcionam muito para quem pode fazer neste momento um trabalho intelectual, que cada vez é mais presente no mundo moderno. O trabalho dessas pessoas é escrever, fazer contatos comerciais, criação artística, o próprio jornalismo, escrever projetos, essas pessoas podem fazer o isolamento. Mas outras não podem, aqueles que estão prestando serviços na rua e precisam gerar renda todo dia para sobreviver. Essas pessoas têm um contato humano muito grande, vão continuar circulando, muitas delas não podem se dar ao luxo de ficar paradas por 30 dias, dois meses. Pessoas que trabalham no comércio, indústria ou prestadores de serviços, essas pessoas vão se expor muitas vezes. Será interessante no Congresso Mundial de Arquitetos, que reúne pessoas que pensam as cidades e as habitações, discutir o que seria hoje uma habitação e uma cidade saudáveis; como criar um ambiente saudável para todos, pois isso hoje é possível em algumas áreas da cidade, para algumas pessoas, mas para outras, não.

As cidades, as casas, os equipamentos públicos, o transporte, o planejamento urbano em geral, nada disso foi pensado para uma realidade de Coronavirus. Nem os hospitais estavam preparados. Até que ponto a arquitetura e o urbanismo, a forma de se construir as casas, as fábricas e as cidades contribuíram para essa pandemia?

Milton Santos, geógrafo, falava que nenhuma cidade é reflexo das condições atuais, elas são sempre reflexo do passado. A cidade é um lugar que a gente habita, mas que foi construída lá atrás, em outro tempo. Algumas são muito antigas, ainda têm resquícios das cidades de centenas de anos atrás, como algumas cidades europeias e na Índia e na China, sociedades mais tradicionais e mais antigas.

É importante reparar que nessas cidades antigas era importante a aglomeração, uma casa era muito juntinha das outras, as habitações eram pequenas, com péssimas condições de higiene, com exceção de alguns milionários e nobres. Depois, se pensarmos já nos séculos 19 e 20, as cidades norte-americanas se converteram em metrópoles com grandes ruas, mais espaçadas, porque foram construídas já com a lógica dos carros, com avenidas largas e parques. São cidades mais arejadas e que permitem uma circulação mais rápida de pessoas. E aqui no Brasil temos o exemplo de Brasília, mais recente ainda, uma cidade que foi pensada para as pessoas se locomoverem rápido, mas ficarem dentro de casa ou do trabalho a maior parte do tempo, com poucas opções de lazer coletivo. É um modelo de cidade interessante, que talvez até seja um modelo protetor em relação ao Coronavirus, porque as interações são diminuídas.

Mas nas grandes cidades mundiais, em geral, o padrão é a grande circulação de pessoas, transporte coletivo ou individual com maior rapidez, algumas áreas livres com certo arejamento com grandes avenidas e parques, mas com uma densidade enorme, e que pressupõe a interação entre as pessoas. O comércio e o trabalho, tudo isso te obriga a se deslocar o tempo todo nas cidades.

O mundo vai mudar depois do Corona?

O que eu tenho lido e a experiência de várias outras epidemias que aconteceram no mundo é que elas mudam os padrões de comportamento, mudam a arquitetura e as cidades, mudam a sociedade. A epidemia de Aids é um grande exemplo, as pessoas mudaram de comportamento e em suas maneiras de viver em grupo. Sobre o Corona, o que está em jogo a meu ver é uma nova relação entre Estado, comunidade e indivíduo. O brasileiro, infelizmente, é muito individualista, ele não obedece, não quer saber, nem se interessa pelas políticas de Estado. Dá um certo valor à comunidade, mas basicamente o brasileiro é o indivíduo e a sua família. Já o japonês é completamente o contrário, o Estado é mais ou menos forte, mas a comunidade é muito importante para o japonês, tanto que eles mantêm normas rígidas de relacionamento, de como se cumprimentar, o que falar. Há vários outros exemplos, como os norte-americanos, uma sociedade mais ou menos forte, mas onde o individualismo também predomina. O europeu, por sua vez, é mais coletivo e com o Estado mais presente, não necessariamente como uma ditadura, mas lá as pessoas se acostumaram a obedecer e respeitar o Estado, e também lutar por seus direitos, mas sempre pensando em seus governos nacionais.

O que eu imagino é que, de maneira geral, a comunidade e o Estado vão sair fortalecidos. O bem-estar social, os serviços públicos, o sistema de saúde e a Previdência Social, agora com o Corona, estão voltando a ser valorizados. Para enfrentar essa pandemia as pessoas têm que ter uma renda mínima, acesso aos serviços de saúde, educação para todos, transporte barato e condições boas de moradia, e isso é garantido apenas pelo Estado. Se o Estado não fizer essa parte, as pessoas começam a se virar, e já vimos que as pessoas se virarem num país como o Brasil e outros países periféricos não funciona, o que gera são favelas e marginalização nos vários sentidos da palavra – ou porque não tem emprego, ou porque vivem mal, e aí vivem à margem da sociedade, não inseridos ou digitalmente desconectados.

Outra coisa que me chama muito a atenção é o uso intensivo das mídias sociais e a necessidade de estar todo mundo conectado o tempo todo. E de checar a origem das informações. Já que está todo mundo com restrições de mobilidade, todos estão usando intensamente a tecnologia. Isso, sem dúvida nenhuma, vai despontar, e é capaz de o home-office virar uma prática daqui por diante.



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