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Covid 19: um desafio nas esferas política, científica e humana

30/03/2020

Nísia Trindade Lima é doutora em Sociologia, pesquisadora, professora e, há três anos, preside a Fundação Oswaldo Cruz, onde trabalha há três décadas. À frente da instituição - uma referência nacional incontestável na promoção da saúde e do desenvolvimento social e na geração e difusão de conhecimento científico e tecnológico – ela se impõe dois grandes desafios em meio à pandemia de coronavírus: “salvar vidas e proteger o Sistema Único de Saúde, o SUS, em sua capacidade de atendimento a outras doenças que afetam a população brasileira, além do Covid-19”.

Na observação de Nísia, o coronavírus encontrou no Brasil uma situação muito favorável a sua disseminação: “um país continental, extremamente desigual, em que várias regiões combinam condições sociais desfavoráveis com alta densidade urbana, populacional”.

A desigualdade social é, para a presidente da Fiocruz, o fator mais relevante a ser considerado no combate à pandemia. Grupo de risco, para ela, não são especificamente os idosos e as pessoas com doenças crônicas e problemas imunológicos, mas aqueles que vivem na precariedade, em aglomerados, altamente vulneráveis.

“A Covid-19 está se intensificando no Brasil primeiro em dois grandes centros, o que é natural, uma vez que veio pelo tráfego aéreo. Chega de classe executiva, mas se depara com uma realidade em que nós temos uma alta densidade populacional e em condições habitacionais de muitas vulnerabilidades, como é o caso de muitas das nossas periferias e favelas em todos os centros urbanos do Brasil. Esses fatores que têm que ser observados e as pesquisas e as políticas públicas terão que olhar para essa realidade tão complexa que se resume numa palavra: desigualdade”.

Ela menciona também os problemas de mobilidade urbana das grandes metrópoles brasileiras: “o transporte público é lotado e isso também interfere no curso da epidemia”.

Para Nísia, as estratégias de contenção da pandemia no Brasil terão que levar em conta as experiências de outros países e o estudo das diferentes realidades demográfica e sociais. Ela recomenda o distanciamento físico, o que em sua opinião não é exatamente um isolamento social: “temos hoje recursos e tecnologias de informação e comunicação que ajudam a enfrentar uma situação tão grave e talvez nos permitam viver esse isolamento não como distância social, mas como distância física”.

Sobre as especificidades do corona, Nísia faz uma avaliação histórica: “esta pandemia apresenta uma complexidade enorme, porque estamos em pleno século 21. Vivemos hoje em um mundo extremamente conectado do ponto de vista de população, de pessoas, de mercadorias. Temos também uma capacidade muito grande de informação e de análise e de produção intensa de conhecimento nos vários domínios da ciência, como a biologia molecular, a imunologia e a epidemiologia, o que é muito importante neste momento. E temos um contexto novo de uma disseminação mais intensa de vírus, de reemergência de doenças antigas e emergência de novas. Teremos mais casos de viroses nos próximos anos, principalmente as respiratórias. Esta é uma tendência apontada por estudos e isto está relacionado ao nosso modelo de desenvolvimento, com variáveis ambientais”.

A Fiocruz tem trabalhado em diversas frentes para ajudar na contenção da pandemia de coronavírus: o diagnóstico da doença, a assistência para pacientes graves; ensaios clínicos para definição de tratamentos; pesquisas e formação de profissionais. O Laboratório de Vírus Respiratório e Sarampo do Instituto Oswaldo Cruz, que é referência no país, fez o treinamento de outros laboratórios. O Instituto de Tecnologia em Imunobiológicos, por sua vez, está produzindo kits diagnósticos. E, para o atendimento aos pacientes com coronavírus, será instalado, no campus-sede da Fundação, em Manguinhos, o Centro Hospitalar Fiocruz para Pandemia da Covid-19, com 200 leitos de tratamento intensivo e semi-intensivo. Com uma estratégia de montagem rápida, com canteiro de obras em tempo integral, o “hospital de campanha” tem previsão de atender em 40 dias, em um primeiro módulo, com 100 leitos. O hospital será construído na área ocupada por um campo de futebol.

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Do alto do Pavilhão Mourisco, um castelo tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), que abriga a sede da Fiocruz, em Manguinhos, Nisia Trindade gravou um vídeo para o UIA2021RIO, apontando o vizinho Complexo da Maré como exemplo da grande desigualdade e da grande densidade demográfica – a combinação que preocupa e que requer atenção, debate, e propostas de soluções. Assista.


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