1 agosto

Museu da Língua Portuguesa – o recomeço

Projeto de Paulo e Pedro Mendes de Rocha é reformado, […]

Projeto de Paulo e Pedro Mendes de Rocha é reformado, restaurado e reinaugurado seis anos após incêndio

 

Quando inaugurado em março de 2006, o Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo, conquistou amantes das letras, da cultura, da história, da arquitetura e da cidade. Tinha por objetivo “valorizar a diversidade da língua portuguesa, celebrá-la como elemento fundamental e fundador da cultura e aproximá-la dos falantes do idioma em todo o mundo”. São Paulo foi escolhida por reunir a maior população de falantes da língua portuguesa em todo o mundo.

E o museu foi instalado em um anexo da Estação da Luz, construção histórica, que acaba de completar 120 anos, recebendo em média 250 mil passageiros por dia útil.

Projetada pelo arquiteto britânico Charles Henry Driver para a São Paulo Railway, com sede em Londres, a estação reflete a arquitetura inglesa dominante no fim do século XIX, e o estilo neoclássico, com elementos góticos como as torres paralelas em referência às da Abadia londrina de Westminster e o Relógio inspirado no Big Ben.

A estação foi um dos principais pontos de passagem dos imigrantes que chegavam ao país e, até hoje, é um espaço dinâmico, que permite o contato de pessoas de várias culturas e classes sociais.

Foi tombada pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Artístico, Arqueológico e Turístico (Condephaat) em 1982 e, para abrigar, o Museu da Língua Portuguesa, recebeu a primorosa intervenção projetada por ninguém menos que Paulo Mendes da Rocha e seu filho Pedro. Uma missão que exigiu talento, perspicácia e cautela: além de um patrimônio histórico, era um prédio vivo, de uso intenso.

O projeto foi realizado sem que se interrompesse o fluxo de passageiros pelas três passarelas sobre o trem tampouco no saguão central. O museu foi instalado ao longo de todo o comprimento da estação, conformando-se em uma galeria bem extensa. Em seu terceiro piso, ficou um auditório e a Praça da Língua, uma das mais importantes atrações do local.

Em seus primeiros 10 anos de funcionamento, o Museu da Língua Portuguesa recebeu quase 4 milhões de visitantes, dezenas de exposições e doze premiações, inclusive internacionais. Até que, em 2015, a construção sofreu um segundo incêndio (a primeira ocorrência havia sido em 1946).

A reconstrução

Para reformar e restaurar as instalações do Museu da Língua Portuguesa, o Governo do Estado de São Paulo e a Fundação Roberto Marinho, além de recorrerem ao valor segurado, contaram com parceiros: a EDP, como patrocinador master, e ainda os grupo Globo e Itaú, a Sabesp, a Fundação Calouste Gulbenkian e o Governo Federal, por meio da Lei de Incentivo à cultura. Os investimentos somaram mais de R$ 85 milhões. As obras foram aprovadas e acompanhadas pelos três órgãos responsáveis pelo patrimônio histórico: o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), o Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico (Condephaat), órgão estadual, e o Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo (Conpresp).  

Além de melhorias de infraestrutura e segurança contra incêndio, a reconstrução também foi pautada pela sustentabilidade e foi conquistada o selo LEED (Leadership in Energy and Environmental Design), na categoria Silver. Medidas para economia de energia (35% só em iluminação) e água (é prevista a redução de 52% no consumo) e gestão de resíduos durante as obras, somaram-se a um trabalho apurado de reaproveitamento de madeira.

Uma marcenaria foi instalada no primeiro piso e mais de 300 esquadrias foram recuperadas ou refeitas com a madeira da cobertura original, com mais de 70 anos.  Para a nova cobertura, foi usada madeira certificada proveniente da Amazônia.    

O projeto e as novidades

A nova versão do Museu da Língua Portuguesa foi concebida por Pedro Mendes da Rocha, com a preocupação de manter o projeto original desenvolvido com seu pai, Paulo Mendes da Rocha. A execução foi coordenada pelas arquitetas Ana Paula Pontes e Anna Helena Villela.  Houve, no entanto, a oportunidade de aprimorar o projeto com base no que foi observado ao longo dos seus dez anos de funcionamento.

Segundo Larissa Graça, gerente de Patrimônio e Cultura da Fundação Roberto Marinho, uma das intenções que permeou a intervenção foi a de aumentar a integração do museu com a estação e, consequentemente, com a cidade. Para isso, no piso térreo foram abertos diferentes acessos.

O saguão principal

Nos andares superiores, os espaços foram otimizados para abertura de novas salas de exposição. O corredor de 106 metros, criado por Paulo Mendes da Rocha para abrigar a “Rua da Língua”, foi mantido no segundo pavimento e ganhou aparatos tecnológicos.

O terceiro andar, antes restrito aos funcionários, é a grande novidade do projeto atual: foi transformado em um terraço, aberto ao público, com vista para o Jardim da Luz. Para acesso a esse espaço foram instalados elevadores na Torre do Relógio conectando o público do saguão com o novo mirante. O espaço tem 262 metros quadrados e, além do Jardim da Luz, permite ao visitante apreciar edifícios emblemáticos da cidade, como o Copan e o Itália, a estação Júlio Prestes, e a própria Torre do Relógio da Estação da Luz. O espaço foi batizado com o nome de Paulo Mendes da Rocha.