27 maio

Jaime Lerner – a despedida de uma enorme referência em urbanismo

Um membro muito especial do Comitê de Honra do UIA2020RIO, […]

Um membro muito especial do Comitê de Honra do UIA2020RIO, o arquiteto e urbanista Jaime Lerner faleceu nesta quinta-feira, 27 de maio, aos 83 anos. Ex-presidente da União Internacional dos Arquitetos (UIA), ele foi um dos grandes incentivadores para que o Rio de Janeiro se tornasse sede do 27º Congresso Mundial de Arquitetos. “No Rio, cada espaço é uma celebração. A cidade reúne os desafios enfrentados em metrópoles do mundo inteiro. E nela também está a bíblia da arquitetura moderna”, dizia.

Duas vezes governador do Paraná, três vezes prefeito de Curitiba, Lerner é reconhecido como o criador, ainda nos anos 1970, do “metrô sobre rodas” da capital paranaense, hoje internacionalmente batizado como BRT (Bus Rapid Transit).

Curitibano nascido de uma família de imigrantes judeus poloneses originária de Łódź, Jaime Lerner estudou em escolas públicas até o secundário e formou-se arquiteto e urbanista pela Escola de Arquitetura da Universidade Federal do Paraná em 1964. Ainda quando estudante idealizou com colegas o Plano de Circulação da capital. Em 1971, foi escolhido prefeito de Curitiba, que, à época, tinha cerca de 700 mil habitantes. Era a “típica cidade estendida”, em que se leva horas para ir do centro ao subúrbio, dizia.

Sem recursos para implantar um metrô, Lerner pensou fazer um na superfície: com uma faixa exclusiva e poucas paradas com “tubos” que permitissem o embarque rápido por várias portas. Funcionou. As pessoas não tinham que esperar mais do que um minuto.

Seu “metrô sobre rodas”, em 1974 transportava 50 mil curitibanos por dia. Atualmente, passa de 2,6 milhões o número diário de usuários – não muito longe do metrô de Londres, que está na faixa de 3 milhões/dia. Foi imitado em várias cidades de outros países, tão distintas quanto Bogotá, Seul, Los Angeles e Istambul.

Depois da mobilidade, Jaime Lerner investiu nas áreas verdes. Expropriava e criava parques públicos. A proporção desses espaços aumentou de meio metro quadrado por habitante para 50, sem grandes investimentos. Jaime Lerner foi pioneiro em sustentabilidade e sabia fazer muito com poucos recursos.

De lá para cá, desenvolveu planos urbanísticos e assessoria para várias cidades do Brasil (Rio de Janeiro, São Paulo, Porto Alegre, Florianópolis, Recife, Salvador, Aracaju, Natal, Goiânia, Campo Grande, Niterói, Joinville, Cuiabá, São Caetano do Sul, Campinas) e de outros países (Estados Unidos, México, Panamá, Angola, Venezuela, Porto Rico, China, Cuba, Coreia do Sul). Foi também consultor das Nações Unidas para Assuntos Urbanos.

Prêmios e títulos internacionais não faltam em sua trajetória. Destaque para Prêmio Máximo das Nações Unidas para o Meio Ambiente (1990); UNICEF Criança e Paz (1996);  Prêmio “The 2002 Sir Robert Mathew Prize for the Improvement of Quality of Human Settlements”, pela União Internacional de Arquitetos – UIA; Prêmio “Volvo Environment Prize 2004”; 1º lugar no Concurso Nacional de Projetos para o Edifício-Sede da Polícia Federal, em Brasília (1967); 2º lugar no Concurso Internacional Eurokursaal, San Sebastian, Espanha (1966); e a Silver Medal no “International City Design Competition” da University of Wisconsin, EUA (1989).

No campo da Educação, foi professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Paraná e professor convidado e conferencista nas universidades norte-americanas de Berkeley (Califórnia), Cincinnati, Columbia (NY); na universidade japonesa de Osaka; além de conduzir seminários em diversos países como Colômbia, Porto Rico, Espanha, Reino Unido, Japão, EUA e China.

Frequentemente lançava frase de efeito como as usadas na crítica ao crescente uso de carros: “É o cigarro do futuro. Não há futuro urbano se o transporte depende de veículos particulares”. Também sentenciou certa vez: “Quando você alarga as ruas, estreita a mentalidade. E destrói a história”.

Em 2010, a revista norte-americana “Time” colocou Jaime Lerner entre os 25 pensadores mais influentes do mundo. Naquele mesmo ano, ele recebeu a Medalha de Urbanismo da L’Académie D’Architecture (França) e em 2011 o Fórum Internacional de Transportes da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OECD) concedeu-lhe o prêmio “Leadership in Transport Award”, por seu trabalho em mobilidade urbana sustentável.

Desde 2003, além do escritório Jaime Lerner Arquitetos Associados, presidia o Instituto Jaime Lerner, entidade sem fins lucrativos que tem como missão a difusão de ideias, conceitos e inovações urbanas. Teve seis livros publicados e deixa duas filhas, Andréa e Ilana.

 

Assista no canal do UIA2021RIO no YouTube, o vídeo em que Jaime Lerner fala sobre o Rio de Janeiro – Capital Mundial da Arquitetura: