26 fevereiro

A força do digital

Presidente da XXII Bienal Pan-Americana de Quito, a BAQ2020, primeiro […]

Presidente da XXII Bienal Pan-Americana de Quito, a BAQ2020, primeiro grande evento de arquitetura realizado exclusivamente no ambiente digital em razão da pandemia, Maria Samaniego nos conta, em entrevista exclusiva, os desafios enfrentados e as vantagens do formato.

A BAQ 2020 conquistou participantes de 25 países por meio de uma plataforma exclusiva e de 57 países por meio das redes sociais. Cerca de 1.300 pessoas estiveram conectadas diariamente ao site do evento e as visitas chegaram a 77 mil no período da Bienal. Nas redes sociais, as transmissões tiveram uma média de 6 mil compartilhamentos e 4,5 mil interações.

Para Samaniego – que também presidiu a BAQ2018 – a edição de 2020 é um testemunho da enorme capacidade que o evento tem de se adaptar e responder à realidade em mudança. Confira a íntegra da entrevista.

 

A Bienal Pan-americana de Arquitetura de Quito, ao longo de mais de 40 anos, adquiriu notável experiência. Nascida em 1978, como um evento regional andino de três dias de duração, 100 participantes, quatro convidados internacionais e 50 projetos concorrentes, converteu-se em um dos mais reconhecidos no âmbito da arquitetura em nível continental. A BAQ tem alcance pan-americano desde 1996, e, em sua edição de 2018 – a última presencial –, com duração de cinco dias, recebeu 2 mil participantes diários, mais de 35 convidados como palestrantes e jurados, e 650 projetos participantes do Concurso Bienal.

Esta vasta experiência logística e organizacional foi de pouca utilidade quando tivemos que encarar a nova realidade pandêmica e a complexa decisão de realizar o evento apesar das graves condições de incerteza que enfrentávamos.

Embora toda a base conceitual já estivesse formulada e em processo, a equipe organizadora da Bienal de Quito empreendeu um difícil processo de pesquisa e compreensão da ampla gama de possibilidades tecnológicas digitais disponíveis, que também aumentaram de maneira vertiginosa no período de confinamento.

As novas formas de trabalho – o teletrabalho – somadas à incerteza permanente no curto e médio prazo resultou em um processo de constantes mudanças nas decisões e, não fossem a sólida estrutura da BAQ e a grande capacidade de adaptação, resiliência e comprometimento da equipe, certamente não se teria produzido um evento no nível atingido.

Na edição 2018, a BAQ lançou a Chamada Acadêmica, em que estudantes e universidades de todo o mundo realizam análises críticas de obras de arquitetura que permitem exemplificar a hipótese teórica proposta. Esta convocação culmina no seminário acadêmico realizado na semana BAQ, em que vários atores (autores dos trabalhos, estudantes e profissionais integrantes da chamada acadêmica, críticos de arquitetura) discutem esses trabalhos previamente analisados. Graças aos excelentes resultados, a BAQ 2020 realizou novamente a Chamada Acadêmica.

Essas palestras, além de entrevistas e conferências principais, são o coração do seminário acadêmico BAQ, e com essas novas condições não presenciais surgiram grandes incógnitas: o que fazer? Como garantir que a Bienal Quito não seja apenas mais um webinar, dos quais já estamos todos saturados?

Uma decisão importante que tomamos foi não tentar imitar ou simplesmente transferir o evento presencial para o ambiente digital, mas aproveitar todas as possibilidades tecnológicas que estavam disponíveis, fornecendo conteúdo de altíssimo valor que complementou as transmissões ao vivo dos eventos acadêmicos. Conseguimos gerar uma experiência hipermídia, com uma série de elementos e materiais que foram essenciais para promoverem a interação e um bom aproveitamento pelos participantes.

Assim, os participantes virtuais puderam contar com um amplo conteúdo de apoio (planimetrias, fotografias, análises críticas, diagramas etc) enquanto assistiam a uma palestra ou entrevista ao vivo, o que, de alguma forma, substituiu a experiência presencial e proporcionou uma possibilidade real de interação que complementa a simples experiência de um ouvinte.

A grande vantagem do formato digital é que expande exponencialmente a possibilidade de alcance global. A BAQ 2020 teve participantes de 50 países ao redor do mundo, como Hungria, Alemanha, Japão, entre outros.

Adicionalmente, este formato permite que a Bienal se prolongue por mais tempo pois, nos próximos dois anos, estará acessível a plataforma hipermídia em que constam todos os eventos gravados e o conteúdo de apoio. Garantimos, assim, maior divulgação e impacto.

As bienais devem muito às cidades que as acolhem, e a cidade de Quito corresponde totalmente a essa responsabilidade. O eixo cultural da BAQ garante que ela ultrapasse o círculo acadêmico e irradie por toda a cidade com uma variedade de eventos culturais relacionados à arquitetura e espalhados por diferentes pontos de interesse.

Essas atividades também sofreram uma mudança drástica no ambiente pandêmico, e a decisão foi: se os participantes não puderem ir a Quito, levaremos Quito aos participantes. Isso gerou uma série de atividades em que artistas e atores culturais foram convidados a intervir digitalmente em material gráfico e vídeos de ícones da cidade. Também resultou em uma série de três vídeos documentários mostrando a transformação da cidade a partir da aparência estática de três edifícios icônicos da cidade, entre eles a Casa da Cultura Equatoriana, onde tradicionalmente foi realizado o evento por mais de dez edições.

Sim, é muito provável que o formato virtual seja mantido devido às vantagens de alcance e difusão, além da economia de meios; no entanto, e para manter e reforçar a experiência presencial, cada vez mais cobiçada, o ideal será um evento misto ou híbrido que possa aproveitar as vantagens dos dois formatos.

 

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