6 abril

Des-embranquecendo a cidade

O Podcast “Des-embranquecendo a Cidade” é um lugar inventado a partir […]

O Podcast “Des-embranquecendo a Cidade” é um lugar inventado a partir do desejo de cinco mulheres negras, residentes em Salvador, São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte, de burlar o distanciamento geográfico, para promover e celebrar o encontro. Emmily Leandro, Gabriela Gaia, Luciana Mayrink, Malu de Barros e Natalia Alves, são a coletiva Terra Preta, que dá forma e voz à esse exercício de criação de um território virtual, partilhado — que é tanto uma aposta política quanto estética -, tornado público agora, pela primeira vez.

Mobilizaremos nos episódios que se seguirão, nossos distintos trânsitos, acúmulos e bagagens, atravessadas por vivências, histórias, memórias, afetos, atuações profissionais e militantes, para pensar e falar sobre as cidades, as vidas contidas nelas e também seus transbordamentos. Nos interessa a interlocução como gesto gerador, capaz de tecer cartografias feministas afro-diaspóricas, que articulam “raiz e errância” (em referência a Edmilson de Almeida Pereira) e que vazam em palavra com cheiro-força de terra e mar, como bem associa a escritora Cristiane Sobral em seu poema intitulado “águas”.

Porque “des-embranquecer a cidade” significa re-povoá-la com um tanto de coisa que foi sequestrada dela, como se não fosse digno, relevante, próprio ou real.

A cidade é discursiva e politicamente construída por determinados setores, agentes e sujeitos como uma ficção pequena, pobre e incompleta, quando aparta, minimiza, subjuga e demoniza, aquilo que, ao contrário, lhe permite e assegura que a vida não se acabe. Não abriremos mão de reverenciar, reconhecer e carregar os aprendizados de nossas mais velhas, assim como não nos furtaremos de vislumbrar e ousar futuros maiores. Reconhecemos nossa natureza oceânica e infinita, quando nos encontramos em mulheres como Beatriz Nascimento. Carregamos um corpo-mapa de países longínquos e nos refazemos em cada pedaço de terra que vimos renascer em tantos cantos de formas improváveis.

Não podemos reivindicar menos do que a cidade enquanto território de direito ancestral, a qual leremos a partir de perspectivas, políticas e cosmologias que façam sentido, não aquelas impostas ou violentamente naturalizadas ao longo do tempo. Ganharemos todas com isso. Nesse primeiro texto, apresentamos três questões que configuram o cruzamento que constitui esse território e estão nos mobilizando.

O primeiro deles, diz respeito à escrita partilhada, que antecede essa performance sonora. Temos entendido o exercício coletivo da escrita como um modo de produzir espaço, diminuir distâncias, criar conexões. Que só faz sentido existir se coletivo. Gloria Anzaldua, escritora estadunidense de origem mexicana, escreveu que na companhia de outras mulheres, “a solidão do escrever e a sensação de falta de poder dissipam-se”. Que esse movimento coletivo de mulheres, ainda que escrevesse individualmente, fazia sua escrita saltar para um lugar sem tempo e espaço.

“Onde esqueço de mim e sinto ser o universo. Isto é o poder”, escreveu Gloria.

Quando reafirmamos essa escrita como coletiva dizemos ao mundo que não estamos sós. Escrevemos a várias mãos. Buscamos inspiração nas mulheres incríveis que de alguma forma tem atravessado nossos caminhos. Mulheres da família, amigas, militantes guerreiras, intelectuais da academia, literatas, musicistas, artistas em geral, curandeiras e tantas quantas fizer sentido interagir para criar nossos territórios. Encaramos o texto como abrigo e lugar de encontro. Da mesma forma encaramos a cidade. E essa amplitude de presenças, de relações e coexistência, é própria dela.

O segundo elemento desse cruzamento — e essa ordem não tem sentido de ranqueamento — é sobre a certeza de que os conteúdos, sobre os quais desejamos falar, urgem por novas formas de comunicar. Como expressar o conhecimento transmitido pela oralidade de nossas ancestrais e que nos trouxe até aqui? Como construir um texto desobediente como as práticas cotidianas das mulheres negras? Essas perguntas nos atravessam enquanto tecemos palavras sobre falar das cidades possíveis.

Expressar nossa voz no papel como forma de alimentar explicações e representações que afirmam a nossa humanidade, é um exercício. O texto foi por muito tempo uma ferramenta que viabilizava opressões. Como escreve bell hooks, “As mulheres negras da diáspora não passaram a escrever naturalmente, pois há sempre alguém pronto a silenciar o impulso natural de criação logo que ele se manifesta em nós, portanto para escrevermos devemos sempre resistir. Devemos sempre lembrar que nossos ancestrais se sacrificaram para que possuíssemos a habilidade de ler — para que escrevêssemos”. Escrever, portanto é dar sentido à nossa existência, ser dona da nossa história, como afirma a estadunidense Patricia Bell Scott. Reivindicando a escrita, torna-se possível o surgimento de um universo onde a linguagem pode ser reinventada, ressignificada e liberta — ainda que momentaneamente.

Nessa direção, Grada Kilomba, portuguesa de origem em Angola e São Tomé e Príncipe, aponta a escrita e a arte como lugares onde se encontra novamente, onde pode “descrever ao invés de ser descrita”, onde pode falar ao invés de ser falada. “onde eu vou ser autora e autoridade da minha própria história.”, diz a multi-artista.

A escritora mineira Carolina Maria de Jesus sabia muito bem sobre a potência que existe no ato de escrever a própria história: “Nossa escrita é uma arma”, dizia ela. Àqueles que a insultavam, informava: “Vou botar seu nome no meu livro”. O que aprendemos com a escrita desobediente e corajosa de Carolina Maria de Jesus?

Trata-se de se tecer novas tramas urbanas. O que as mulheres negras estão fazendo na cidade? Como as mulheres negras constroem cidade? Sabe-se que texto e cidade não coincidem, não se confundem, mas o que vem à tona nos “resíduos do verbo” — ideia bonita e forte que pegamos emprestada da poeta mineira Leda Maria Martins -, quando tomamos como fio condutor as narrativas dessas mulheres e seus escritos afro diaspóricos?

E a terceira questão, que se realiza como amarração às outras duas, é sobre como traremos para o centro do nosso espaço, questões que nos são tão caras — e ao mesmo tempo carregadas de tantas negligências-, sem nos arrasarmos ao fim de cada episódio. Essa talvez seja, na verdade a maior motivação de existirmos neste espaço virtual, co-habitando multiplamente essas palavras. Porque esse corpo ainda se rende à exaustão da vida pessoal e profissional que se desloca por essa cidade-campo minado. Porque esse corpo também se rasga e é rasgado quando vocaliza e consolida aqui isso que surge entre pensamento e palavra. Explanar as coisas que experimentamos nesse período nos ajuda a compreender muito do que sentimos sobre a transformação do silêncio em linguagem e em ação de que fala Audre Lorde, escritora estadunidense de origem caribenha. A quem serve nosso silêncio?

O silêncio e a desmemória acerca da contribuição intelectual e das prática de negras e negros na cidade foram sustentados por séculos nos espaços de formação. No entanto, nunca deixamos de falar ou produzir conhecimentos. Há de se considerar que o acesso e as autorizações necessárias para que determinados grupos pudessem fazê-lo utilizando sua própria voz, foram, e continuam a sendo, assimétricos. Por isso, encontrar uma forma de retornar ao que não é mostrado sobre os nossos é urgente. Quando olhamos os percursos que consolidamos e os espaços que estamos ocupando nas universidades, nos escritórios, nas galerias, mergulhamos em nós mesmas e nas memórias construídas nesse imenso campo. Nos re-conhecemos quando tecemos e recompomos nossa ancestralidade. Com ela forjamos novos-velhos conhecimentos com os quais podemos e devemos potencializar nossos caminhos. Esses saberes em ação escapam à zona exaustiva da dor promovida pelo trauma colonial.

Essa não é tarefa para uma mulher só, e por isso estamos aqui expondo os processos de cura que estão nos levando a caminhos além da exaustão. Como propõe a artista e psicóloga capixaba Castiel Vitorino, foi necessário criar um conjunto de mandingas para amenizar dores de corpos violentados pelo racismo, pelos silenciamentos, apagamentos, sequestros, perdas e genocídios. Foi preciso criar também muita música, muito ritmo, dança e muita festa, para suspender temporariamente esse estado de mundo impossível, sem se desligar totalmente dele. Foi preciso inventar muito jeito de estar junto e sobreviver junto.

Para conectar todas essas camadas de vida aos estudos urbanos, propomos testar as possibilidades de restauração de saberes e do desfazimento da profecia ocidental. O enlace com o universo da arte como um caminho possível, ganha pulso e contorno na instalação “Quarto de Cura”, realizada por Castiel na Fonte Grande, no final de 2018. O Quarto de Cura é lá em cima, no morro, na casa do mestre de congo Renato, vizinho da avó de Castiel, onde a artista retorna uma vez por semana como promessa que fez ao avô. É assim que a cidade vai ganhando forma nesses episódios. É assim que a cidade vai se tornando as ações das mulheres negras de diferentes gerações, para que nos caiba, remanse nossos corpos e seja lugar de repouso. É assim que se firma o chão para que os trânsitos, reais ou inventados por nós, produzam conexões que nos mantenham em movimento e nos faça seguir.

E agora que já estamos devidamente apresentadas, gostaríamos de introduzir Sofia Costa, que transita entre as artes e a graduação em arquitetura e urbanismo, na Universidade Federal da Bahia, criadora da arte e identidade visual que compõem esse episódio. A multilocalidade das mulheres do Terra Preta, foi inspiração para seu processo criativo e pela busca de referências, como a do fotógrafo baiano Lázaro Roberto e da artista carioca Olivia Francisco. A colagem enquanto linguagem, tem sido a forma como Sofia tem encontrado para comunicar e realizar suas ações na cidade e seus projetos acadêmicos. Para ela, as colagens potencializam a possibilidade de acúmulo e articulação de narrativas e relatos sobre a cidade e suas vivências, assim como do reconhecimento do que está sendo comunicado. Ela utiliza a fotografia como peça principal, em torno da qual outros elementos se agregam, resultando em composições que contam histórias possíveis e compreensíveis, passíveis de diversas interpretações, a partir de uma única imagem. Sofia entende a imagem como uma ponte entre momentos e gerações quando vai para a rua ou para as redes sociais.

A imagem criada por Sofia traz para o centro da paisagem, duas mulheres fotografadas na década de 70 em Salvador por Lázaro Roberto: uma está trançando o cabelo, enquanto a outra está sendo trançada. A trança nagô foi e ainda é importante meio de identificação e comunicação entre negros e negras da diáspora. Diz a lenda que os desenhos das tramas que se formavam nas cabeças através das tranças, portavam cartografias orientadoras para as fugas, sagazmente transferidas pela trançadeira no ato de trançar.

Ao trazermos esse gesto para a identidade visual do podcast, trazemos a expertise de quem tem a cidade na ponta dos dedos e de quem a percorre e a deseja no próprio corpo, em busca de liberdade. Com a cidade atrás de si, as mulheres de Sofia são coroadas e majestosamente anunciam que estão abertos os caminhos.

Ainda que cada uma se refaça diariamente, é dessa terra compartilhada que partimos para avançar em todas essas ações e narrativas que fertilizam da diáspora. E essa não é, definitivamente, tarefa para uma mulher só.

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